Inteligência artificial repercute no South Summit um dia após manifesto de especialistas pedindo pausa no uso desta tecnologia

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Para os participantes, suspensão temporária nas pesquisas sobre IA é inviável, mas transparência é necessária.

Assim como a coleta de dados pessoais através da internet foi regulamentada nos últimos anos, a automação de algoritmos que respondem de maneira personalizada a ação humana, tecnicamente chamada de inteligência artificial (IA), deve passar por um debate ético e jurídico a partir dos próximos meses.

No South Summit Brazil, na quinta-feira (30), o assunto repercutiu entre empresários e especialistas em tecnologia e inovação. Um dia antes, uma carta escrita pela organização Future of Life Institute, pede que sejam suspensos temporariamente o uso e as pesquisas sobre a inteligência artificial enquanto não houver uma regulamentação dela. Mais de mil pessoas assinaram o documento na web.

Para o doutor em tecnologia e especialista Pedro Bocchese, 43 anos, com 25 anos de experiência na análise de dados, o mercado não atenderá ao pedido feito nesta quarta (29), e seguirá utilizando e desenvolvendo iniciativas atreladas à IA. Ele acredita que a regulamentação precisa acontecer, mas não enxerga um movimento consistente e uniforme nesta direção no atual momento. Bocchese afirma que há uma motivação mercadológica no pedido liderado por Elon Musk, dono do Twitter e fundador da SpaceX e da Tesla. A lista de signatários do pedido inclui, ainda, o cofundador da Apple, Steve Wozniak; membros do laboratório de IA do Google, o DeepMind; além de especialistas americanos em IA, acadêmicos e engenheiros-executivos da Microsoft, parceira da OpenAI, e o historiador Yuval Noah Harari.

Uma empresa saiu na frente incorporando o ChatGPT, a Microsoft, acelerando muito o uso comercial da inteligência artificial. Elon Musk estava à frente antes, quando a usava em seus carros com piloto automático — pontua, lembrando que, em 2015, quando fez doutorado sobre o tema nos Estados Unidos, o debate ético em volta das escolhas feitas pelos algoritmos dos carros da Tesla já existia.

De forma semelhante, o fundador da Cappra Institute for Data Science, Ricardo Cappra, 43, especialista em gestão de dados, pontua que é necessário uma clareza maior nas aplicações da tecnologia. A engenharia que possibilita o crescimento autônomo destes bancos de dados também precisa ser monitorada, tendo em vista que deles sairão as conexões para usuários da ferramenta, resume o empresário.

— O ChatGPT não explica de onde vem sua base de dados. Há coleta de dados através das redes sociais, de toda internet, e de outras fontes que eles não revelam. Isto pode ser perigoso, porque não sabemos de onde suas respostas são tiradas ou quem se responsabiliza se esta ferramenta induzir alguém de maneira equivocada. Assim como uma empresa precisa revelar de onde entrou e para onde saiu seu dinheiro em demonstrativos contábeis, é necessário que o usuário entenda qual foi o critério criado pelos desenvolvedores para a informação que aquela tecnologia usa — detalha.

Ele também acredita que o debate é extenso e que não tem prazo para acabar, mas que a tecnologia já tem efeitos práticos diretos no dia a dia de pessoas comuns.

— Se um sistema digital de recomendação de investimento te sugere um investimento e tu perde muito dinheiro nele, por exemplo, seria teu direito pedir uma explicação de como a empresa desenvolveu este algoritmo. A mesma coisa se replica com dispositivos que fazem qualquer tipo de recomendação, como uma pulseira que monitora atividade física, ou um eventual chat que sirva de apoio para advogados em um processo e assim por diante — exemplifica, mencionando recomendações vigentes na União Europeia.

Tecnologia à serviço do humano

Outro entusiasta da tecnologia, o CEO da Datamilk, empresa que usa inteligência artificial para qualificar vendas de lojas online nos Estados Unidos, Peter Szalontay, 33, foi um dos desenvolvedores de versões de sistemas de automação de anúncios do Google e destaca usos positivos das ferramentas. Ele acredita que independentemente do ritmo de desenvolvimento e da regulamentação de questões éticas, programas como o ChatGPT e outros baseados na automação através de códigos já auxiliam em tarefas repetitivas.

— A inteligência artificial muda o panorama, pode funcionar como um atalho. Espero grandes mudanças nas tarefas diárias de todas profissões — resume o empresário, no painel Data-driven innovation: AI & WEB3, na manhã desta quinta, no South Summit.

Quando se trata diretamente da saúde humana, o desafio é garantir a segurança dos dados pessoais ao mesmo tempo que os contratantes esperam por um serviço personalizado. O engenheiro argentino Luciano Tourn criou em 2018 o Wurú, sistema que organiza agendas médicas em hospitais através de algoritmos que analisam o histórico das equipes médicas, hospitais e pacientes envolvidos. Com redes de hospitais clientes em quatro países da América Latina, ele concorda que a regulamentação da inteligência artificial é necessária. O seu empreendimento é um exemplo da transparência pretendida por outros especialistas, pois tem uma base de dados menor, controlada, e com a transparência que a tecnologia deve buscar.

— Se acontece algum erro, temos um canal direto de comunicação com a direção dos hospitais. Através das informações que nos passam qualificamos os nossos modelos matemáticos, e tudo acontece sem precisar identificar os pacientes, pois é muito delicado lidar com a privacidade médica das pessoas — pondera.

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